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domingo, 13 de abril de 2025

NOITE DAS GARRAFADAS

 A Noite das Garrafadas foi uma revolta que aconteceu no Rio de Janeiro, em 1831, envolvendo portugueses partidários do imperador Dom Pedro I e brasileiros que lhe faziam oposição. Recebeu esse nome devido ao fato de que foram utilizadas garrafas pelos revoltosos. Essa revolta marcou a crise do Primeiro Reinado e o acirramento entre os dois grupos revoltosos.



Causas da Noite das Garrafadas

Logo após a independência do Brasil, em 1822, Dom Pedro I se tornou imperador do Brasil com apoio dos brasileiros, que aguardavam, além da separação política de Portugal, a formação de uma nova nação independente. Porém, com o passar dos anos, Dom Pedro I se tornou um imperador autoritário, não tolerando divergência e usando de meios violentos para conter as ações oposicionistas ao seu governo.

Um dos principais exemplos dessa forma autoritária de governar do imperador foi o fechamento da Assembleia Constituinte de 1823, convocada para elaborar a primeira Constituição do Brasil. Dom Pedro I ordenou o fechamento da assembleia quando os constituintes decidiram incluir na Carta limites aos poderes imperiais.

No ano seguinte, Dom Pedro outorgou, ou seja, impôs uma Constituição que, entre outras medidas, garantia-lhe maiores poderes com a criação do Poder Moderador, exercido somente pelo imperador. Essa forma autoritária causou reações como a Confederação do Equador, revolta que aconteceu na província de Pernambuco, em 1824, e defendia regime republicano no Brasil.

A Guerra da Cisplatina, em 1825, foi outro fato que arruinou a popularidade de Dom Pedro. O aumento das despesas com gastos militares fez com que o império elevasse a cobrança dos impostos, e a crise econômica em que muitas províncias viviam à época provocou reações contra o imperador. A derrota brasileira na Guerra da Cisplatina e a perda da província da Cisplatina, que se transformou na República Oriental do Uruguai, mostraram a inabilidade de Dom Pedro no comando do Brasil.

Mesmo livre da dependência política de Portugal, o Brasil enfrentava a interferência portuguesa nos campos político e econômico. Os antigos colonos tinham força política e se fortaleceram quando Dom Pedro I se aproximou deles oferecendo cargos no império. Isso desagradou aos brasileiros, pois viram nesse gesto uma possível recolonização e o desprestígio brasileiro perante o governo.

Além dessa disputa pelo poder, brasileiros e portugueses conflitavam no âmbito econômico. Logo após a independência, os brasileiros queriam expulsar os portugueses que comandavam o comércio em território brasileiro.

A imprensa teve um papel importante no Primeiro Reinado, e em várias localidades do Brasil havia jornais e panfletos em circulação. Essas publicações foram utilizadas por críticos para atacar Dom Pedro I e divulgar os ideais que não eram aceitos pelo governo, como a república e as ideias defendidas por revoltosos.

Um desses jornalistas que atuavam na linha de frente contra o imperador foi Líbero Badaró. Em 20 de novembro de 1830, o jornalista Badaró foi assassinado e a causa da morte foi atribuída a Dom Pedro I. Isso gerou comoção no país e aumento da já crescente insatisfação com o imperador.

A Noite das Garrafadas

Em busca da recuperação da popularidade e do apoio brasileiro, Dom Pedro I saiu do Rio de Janeiro e seguiu para a cidade mineira de Ouro Preto. Ao chegar lá, o imperador foi recebido com hostilidade pelos moradores e políticos locais. Nas sacadas dos casarões históricos, foram colocadas faixas pretas representando luto em protesto contra as ações autoritárias do imperador.

Para compensar a visita hostil em Minas Gerais, os portugueses simpáticos ao imperador organizaram uma recepção calorosa no Rio de Janeiro para recebê-lo. Isso causou indignação entre os brasileiros contrários ao governo, e o confronto entre os dois grupos ocorreu na noite de 11 de março de 1831. 

Entre paus, garrafas e outros objetos de vidro, brasileiros e portugueses se enfrentaram nas ruas do Rio de Janeiro por três dias. Ressalta-se que os brasileiros saíram vitoriosos do confronto contra os portugueses por estarem em maior quantidade, e assim houve a continuidade dos protestos a Dom Pedro.

Consequência da Noite das Garrafadas

Percebendo a gravidade da crise política, Dom Pedro I abdicou do trono brasileiro em 7 de abril de 1831, poucos anos após a declaração da independência, em favor do seu filho Pedro de Alcântara, que, na ocasião, tinha apenas cinco anos de idade.

Devido à pouca idade do príncipe herdeiro, o Brasil entrou no Período Regencial, no qual foi governado por regentes até o golpe da maioridade, que foi a antecipação da coroação de Dom Pedro II como o novo imperador do Brasil, cargo que ele passou a ocupar aos 13 anos e que deu início ao Segundo Reinado.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

REVOLTA DE FILIPE DOS SANTOS OU REVOLTA DE VILA RICA

A dinâmica de exploração da colonização portuguesa no Brasil assumiu diferentes formas e intensidades ao logo da trajetória do Brasil Colônia. A definição das atividades mineradoras como principal atividade econômica do século XVII deu margem para um sistema de tributação e práticas fiscalizantes nunca outrora observadas em nossa história.



A região de Minas Gerais, na qualidade de maior centro desse tipo de exploração econômica, também foi o local propício para diversos episódios de indignação e revolta contra o controle massivo das autoridades metropolitanas. A própria Guerra dos Emboabas, deflagrada no início das atividades mineradoras, prenunciava que o interesse econômico português seria responsável pela inconformidade de alguns integrantes da sociedade colonial.

Observando a ameaça de seus lucros com o contrabando e a livre exploração dos minérios, Portugal resolveu implementar uma série de tributações a serem aplicadas sob a região das Minas Gerais. Em 1719, ainda buscando garantir uma ampla margem de lucro, os portugueses instituíram as chamadas Casas de Fundição, que funcionariam como centros de cobrança e controle sobre as riquezas extraídas do solo.

Paralelamente à tributação dos minérios, a formação de diversos centros urbanos trouxe outra notável fonte de renda à metrópole. Graças às amarras econômicas estabelecidas pelo pacto colonial, os colonos ainda eram obrigados a pagar os altos valores cobrados sob os gêneros manufaturados oferecidos por Portugal. Mediante essa lógica de exploração e controle é que se compreende a deflagração da Revolta de Filipe dos Santos, em 1720.

A hostilidade e a desconfiança instaladas na região das minas faziam com que qualquer suspeita de contrabando ou sonegação acionassem a rígida ação das tropas metropolitanas. Durante um desses episódios de averiguação das forças metropolitanas, um grupo de mineiros resolveu atacar a casa do ouvidor-mor, principal autoridade judicial da região. Logo em seguida, dirigiram-se para Vila do Carmo a fim de pressionar o governador da região, o Conde de Assumar.

O grupo, liderado pelo tropeiro Filipe dos Santos, reivindicava o fechamento das casas de fundição. Prometendo atender a demanda do grupo, o levante retornou à Vila Rica à espera das ações do governador. No entanto, isso serviu para que as tropas portuguesas se organizassem contra os revoltosos. No dia 14 de julho iniciou-se o conflito que prendeu vários participantes e condenou Filipe dos Santos à morte e ao esquartejamento.

terça-feira, 11 de junho de 2024

A BATALHA DO RIACHUELO

 A Batalha Naval do Riachuelo é considerada um dos maiores triunfos da História das Forças Armadas do Brasil. A sua deflagração tem a ver com a Guerra do Paraguai, onde o Brasil juntava forças com a Argentina e o Uruguai. O conflito, ocorrido entre 1864 e 1870, foi resultado de uma série de disputas políticas envolvendo as nações que trafegavam na região do rio da Prata. O início da guerra só tomou forma mediante o ambicioso projeto expansionista do governo paraguaio.



O conflito naval acontecido no Rio Riachuelo foi considerado de suma importância para a vitória da Tríplice Aliança (Brasil, Uruguai e Argentina) frente às forças paraguaias. Na época, os navios da força brasileira não tinham instalações apropriadas para a navegação fluvial, o que ameaçava a perda de uma embarcação devido o encalhamento. Além disso, as embarcações eram feitas todas de madeira, o que oferecia grande risco frente a qualquer artilharia terrestre.

Durante os preparativos para a Batalha do Riachuelo, coube ao futuro marquês de Tamandaré a tarefa de comandar o poderio bélico-naval brasileiro. De acordo com a estratégia estabelecida, as embarcações do Brasil iriam realizar o bloqueio dos rios Paraguai e Paraná. As forças navais foram divididas em três grupos, um "primeiro fazendo a retaguarda no Rio da Prata, e os outros dois diretamente responsáveis pelo bloqueio.

Enquanto isso, as tropas paraguaias avançavam territorialmente pela margem esquerda do Rio Paraná. Para enfraquecer estrategicamente os militares paraguaios, uma embarcação comandada por Francisco Manoel Barroso da Silva empreendeu uma batalha na cidade de Corrientes. O sucesso dos combatentes brasileiros nessa missão impediria eficazmente a ocupação paraguaia à região sul do Brasil. A importância estratégica dessa localidade fez com que as forças navais brasileiras montassem em Corrientes seu principal ponto de operações.

O plano de reação contra a Tríplice Aliança seria deflagrado na noite de 10 para 11 de junho de 1865. De acordo com o plano paraguaio, as forças navais deveriam fazer um ataque surpresa capaz de surpreender as embarcações brasileiras próximas a Corrientes, que seriam posteriormente rebocadas para Humaitá. Os conflitos começaram na manhã do dia 11 de junho, com ligeira vantagem das forças paraguaias. As forças brasileiras perseguiram os paraguaios até a foz do Riachuelo, onde seriam realizados os confrontos.

Desconhecendo os planos da força naval paraguaia, o militar Francisco Manoel dirigiu Fragata Amazonas com o objetivo de interceptar os paraguaios. O avanço das tropas brasileiras acabou custando o encalhe de duas embarcações atingidas pelo fogo inimigo. O equívoco de Francisco Manoel foi corrigido a tempo de reordenar as embarcações sob o seu comando. A Fragata Amazonas guiou as demais embarcações contra os navios e a artilharia de margem do Paraguai.

Essa primeira parte do conflito se encerrou após doze horas ininterruptas de combate. Os navios brasileiros recuaram para posteriormente retornarem ao palco de guerra com seis embarcações. A segunda parte do conflito foi completamente dominada pelos brasileiros, que conseguiram anular o poder de combate dos navios paraguaios e colocar quatro outros navios inimigos em fuga. No fim do dia, as tropas paraguaias foram vencidas e o bloqueio naval dos aliados estava garantido.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

QUEM FOI CARAMURU?

 Diogo Álvares Correia, conhecido como Caramuru, foi um dos primeiros portugueses a se estabelecer na Bahia. É considerado “pai biológico” do Brasil devido ao seu casamento com uma índia da tribo Tupinambá chamada Paraguaçu.



Diogo Álvares Correia era natural de Viana de Castelo, Portugal, e teria aportado na Bahia entre 1509 e 1510. Não se sabe ao certo se chegou como náufrago ou foi deixado propositadamente pelo capitão do navio a fim de aprender os costumes e línguas dos nativos.

Esse método era usado pelos portugueses na costa africana com o intuito de que o indivíduo pudesse servir de ponte entre os portugueses e habitantes locais. Há historiadores, inclusive, que sustentam que Caramuru teria vindo a bordo de um uma nau francesa, pois ele também ajudou os franceses a comercializar com os índios dessa região.

Diogo Álvares Correia só escapou de ser morto pelos indígenas porque disparou uma arma e matou uma ave. Os índios que não conheciam a pólvora se surpreenderam com a explosão e passaram a chamá-lo de “Caramuru” ou filho do fogo. 

Por outro lado, se diz que Diogo tinha suas roupas encharcadas e cobertas de sargaços coladas ao corpo devido ao naufrágio. Os índios lhe dão a apelido de “Caramuru” que significa moreia, um peixe de aspecto gelatinoso que vive entre os recifes à beira-mar.


 

Caramuru e Paraguaçu

A vida do português daria um novo giro quando se apaixonou por Paraguaçu, a filha do cacique Taparica, da tribo tupinambá. Em algumas crônicas é mencionado que foi ela que salvou Caramuru de ser devorado pela tribo.

O casal viajaria para a França, em 1528, onde ela seria batizada na igreja de Saint-Malo. A índia adotaria o nome de Catarina do Brasil ou Catarina des Granges, em homenagem à sua madrinha Catherine des Granges, esposa de Jacques Cartier, o explorador do Canadá. O casal também contraiu matrimônio nesta cidade francesa.

Após essa viagem, Caramuru se põe em contato com o rei de Portugal a fim de prover caravelas com homens, animais e armas para colonizar a Bahia. Esta expedição seria liderada por Tomé de Souza que chegaria em 1549.

Caramuru e Paraguaçu formaram a primeira família católica do Brasil. Desta maneira, as filhas puderam ser batizadas e, portanto, registradas.

O casal teve quatro filhas: Genebra, Apolônia, Graça e Madalena. Casaram-se com fidalgos portugueses recém-chegados e assim formaram as primeiras famílias baianas e brasileiras. Calcula-se que seus descendentes possam chegar a 50 milhões de brasileiros.Caramuru ainda teve 16 filhos com outras indígenas.

Faleceu em 5 de outubro de 1557 na cidade de Tatuapara, Bahia.

Curiosidades

  • O nome "Paraguaçu" foi uma criação do século XVII. Provavelmente o nome indígena de Catarina seria Guaibimpará;
  • A índia Moema, que teria se jogado ao mar perseguindo Caramuru, pode ter sido uma personagem inventada por Frei de Santa Rita Durão, autor do poema “Caramuru”, de 1781.

terça-feira, 4 de julho de 2023

A INDEPENDÊNCIA DA BAHIA

A Independência da Bahia é um evento também conhecido como Independência do Brasil na Bahia, tratando-se de um desdobramento da Independência de nosso país. A Independência da Bahia, na verdade, foi a resistência estabelecida por parte da população baiana contra os portugueses e as autoridades locais, que se mantiveram leais à Metrópole (Portugal).



A Bahia era uma região em grande estado de agitação, possuindo uma população extremamente insatisfeita com a autoridade portuguesa. Isso fez os conflitos com os portugueses se iniciarem em fevereiro de 1822 e se ampliarem após o 7 de setembro. Os conflitos se encerraram quando os colonos capturaram Salvador, em 2 de julho de 1823.

Contexto histórico da Independência da Bahia

A Independência da Bahia é um movimento que se insere no contexto da Independência do Brasil, no começo da década de 1820. A insatisfação com Portugal existia em algumas partes da Colônia, mas ainda não era generalizada, e havia regiões leais à autoridade portuguesa.

Além disso, não existia uma consciência nacional, isto é, um senso de identificação dos colonos enquanto brasileiros ainda muito bem definida. Exemplos disso foram os dois movimentos separatistas que aconteceram em Minas Gerais e Bahia no final do século XVIII, por exemplo.

No começo do século XIX, o Brasil e, principalmente, o Rio de Janeiro passaram por grandes transformações. Essas mudanças foram resultado das ações promovidas pelo príncipe regente, D. João. O desenvolvimento e a autonomia conquistada pelo Brasil nesse período, conhecido como Joanino, desagradou a burguesia portuguesa, desejosa de recolonizar o Brasil, submetendo-o novamente aos ditames do Pacto Colonial.

Em 1820, foi iniciada em Portugal a Revolução Liberal do Porto, um movimento que procurava estabelecer limites para o monarca luso, mas também buscava ampliar o controle de Portugal sobre o Brasil, anulando a autonomia que havia sido conquistada no reinado de D. João VI (ele tornou-se rei a partir de 1815).

Esse cenário deu força para o separatismo no Brasil, uma vez que as elites daqui não aceitavam a vontade portuguesa de recolonizar o Brasil e pôr fim a todos os avanços que haviam acontecido no período Joanino. O movimento em Portugal forçou D. João VI a retornar para Lisboa, em 1821, fazendo Pedro de Alcântara, herdeiro do trono português, assumir a regência do Brasil.

Sob a regência de D. Pedro, a distância entre Brasil e Portugal aumentou drasticamente, uma vez que as ações das Cortes em relação ao Brasil eram cada vez mais intransigentes, aumentando a insatisfação dos brasileiros com relação ao domínio luso. Nesse processo, D. Pedro recusou-se a retornar para Portugal (Dia do Fico), determinou que as ordens das cortes só valeriam no Brasil por meio de sua autorização (Cumpra-se) e, por fim, anunciou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822.

A declaração de independência do Brasil não encerrou as disputas e desentendimentos com Portugal, mas, sim, os acirrou em algumas partes do país. Isso porque algumas províncias do Brasil se mantiveram leais a Portugal, o que desembocou nas Guerras de Independência, conflitos armados entre tropas favoráveis à Independência e tropas leais a Portugal.

Causas da Independência da Bahia

A Bahia foi um desses locais onde aconteceram conflitos entre tropas leais a Portugal e tropas favoráveis à Independência do Brasil. Na verdade, a Bahia era um grande foco de insatisfação contra Portugal, mas também era um local considerado prioridade pela Metrópole.

A Bahia havia sediado a Conjuração Baiana, em 1798, um movimento separatista de caráter popular que foi esmagado por Portugal e a semente da insatisfação contra a Metrópole no começo do século XIX. A insatisfação com Portugal era encontrada tanto nas elites quanto nas camadas populares da Bahia, o que gerou grandes conflitos entre colonos e as autoridades investidas pela Metrópole.

No caso da Bahia, os conflitos entre brasileiros e portugueses se intensificaram a partir de 1822, mas a relação era muito tensa desde o início da Revolução Liberal do Porto, em 1820. A relação entre a população de Salvador e as autoridades e tropas portuguesas não era amistosa, e desentendimentos eram comuns.

No contexto da Independência, Portugal estabeleceu como prioridade a manutenção do Norte e Nordeste brasileiro, e, por isso, milhares de soldados foram enviados para a cidade de Salvador, em 1822. Assim, caso a Independência do Brasil acontecesse, o plano de Portugal era manter as províncias dessas duas regiões sob o seu controle.

A relação entre brasileiros e portugueses na Bahia se agravou com a nomeação de Madeira de Melo para comandar as tropas portuguesas na província. Essa nomeação irritou a população de Salvador, porque o novo comandante substituiu Manuel Pedro. Sob o comando de Madeira de Melo, as tropas portuguesas foram frequentemente usadas para afrontar e debochar da população, agindo com grande hostilidade.

Muitos confrontos violentos aconteceram entre tropas portuguesas e brasileiros revoltados com o domínio português, causando inúmeras mortes e massacres, como o que ocorreu na Praça da Piedade, em Salvador. Inclusive, considera-se que a guerra na Bahia tenha se iniciado em fevereiro de 1822, tamanha a violência na situação da província. Os conflitos na Bahia, portanto, se iniciaram antes mesmo da Independência do Brasil ter sido anunciada por D. Pedro.

Como ocorreu a Independência da Bahia

Nesse cenário de agitação política em Portugal e no Brasil, os governantes das cidades baianas foram questionados por deputados baianos que atuavam nas Cortes acerca da posição destas diante do cenário apresentado: se eram leais a Portugal ou a D. Pedro. Três vilas anunciaram que estavam leais a D. Pedro, o que causou enorme irritação em Madeira de Melo.

As vilas que anunciaram lealdade a D. Pedro foram Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira. Madeira de Melo, em resposta, determinou, em 25 de junho de 1822, que uma embarcação militar fosse enviada para atacar Cachoeira. A ação gerou uma reação popular, e a embarcação foi atacada, cercada pelos brasileiros em Cachoeira e capturada em 28 de junho de 1822.

Além disso, as hostilidades entre portugueses e brasileiros aumentavam consideravelmente em Salvador, fazendo com que parte da população fugisse para a região do Recôncavo Baiano. As cidades do recôncavo, por sua vez, estavam mais cada vez mais agitadas e alinhadas com D. Pedro. As cidades do recôncavo chegaram a formar um governo paralelo para governar a Bahia.

A situação na Bahia fez com que Portugal enviasse mais soldados para a província para conter a população e reafirmar o controle luso. A situação, no entanto, era incontornável e se agravou mais ainda com a declaração de independência, em 7 de setembro de 1822. O governo sob a liderança de D. Pedro formou um exército às pressas para defender a Bahia.

Essa ação se explica porque após a declaração de independência, a Bahia anunciou lealdade a Portugal, rejeitando adesão ao movimento secessionista do regente. No entanto, a rejeição a Portugal era imensa na Bahia, e a luta se espalhou a partir daí. Os reforços enviados por D. Pedro eram liderados pelo general Pedro Labatut, um mercenário francês.

O general foi obrigado a desembarcar em Maceió, Alagoas, e caminhar com seus soldados até Salvador. No caminho, Labatut foi conquistando apoio ao exército que lutava em prol da Independência do Brasil. Importantes batalhas foram realizadas em Cabrito e Pirajá, mas Madeira de Melo não conseguiu conter as tropas brasileiras, que cercaram a cidade de Salvador.

As tropas leais à Portugal que estavam sob o comando de Madeira de Melo resistiram até 2 de julho de 1823, dia em que a cidade de Salvador foi tomada pelos brasileiros e a Bahia foi reintegrada ao território nacional, sendo leal a D. Pedro. O cerco final a Salvador contou com a ajuda de Thomas Cochrane, que liderava uma esquadrada. Com a derrota, Madeira de Melo fugiu e retornou a Portugal."

Uma figura que recebe grande destaque na história da Independência da Bahia é Maria Quitéria. Em 1822, ela ingressou às tropas que lutavam em defesa da Independência do Brasil, mas o fez sob o disfarce de roupas masculinas, porque seu pai não havia permitido que ela ingressasse no Exército para participar da guerra.

Ela esteve em importantes batalhas durante as Guerras de Independência, sendo reconhecida como uma soldada disciplinada. Eventualmente, o seu disfarce foi descoberto, mas ela foi mantida no Exército em reconhecimento a sua contribuição na luta contra os portugueses. Com a vitória dos brasileiros nesse conflito, Maria Quitéria foi reconhecida como heroína da Independência, sendo condecorada pelo próprio D. Pedro I. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

OS GOVERNOS GERAIS NO BRASIL COLONIAL: PARTE 1

 O Governo-Geral foi criado por ordem do rei português D. João III em 1548. No ano seguinte, nomeou-se na América Portuguesa o primeiro governador-geral: Tomé de Sousa. O objetivo do Governo-Geral era promover a centralização administrativa da Colônia como forma de torná-la mais lucrativa.



Além disso, havia o enfraquecimento do comércio com as Índias, o que forçava os portugueses a transformarem o Brasil em um empreendimento lucrativo – papel que, até então, não era cumprido na Colônia.

Destaca-se que na década de 1550, as rendas brasileiras correspondiam a apenas 2,5% da arrecadação portuguesa, o  denota a pouca relevância do Brasil para o orçamento português. 

Outro ponto que contribuiu para a adoção deste sistema de colonização foi o fracasso português em implantar um império na região do atual Marrocos. Simultaneamente, os portugueses estavam incomodados com o êxito alcançado pelos espanhóis na exploração da América Espanhola, onde estavam sendo encontradas, inclusive, grandes quantidades de metais preciosos.

Diante deste cenário, os portugueses decidiram centralizar a administração da Colônia. Para isso, criaram o cargo de governador-geral, o qual tinha poderes sobre todo o Brasil. As funções dos governadores-gerais estavam detalhadas em um documento português chamado Regimento.

Neste sentido, o Governo-Geral foi estabelecido a fim de substituir e complementar o sistema de Capitanias Hereditárias, que não havia dado o retorno esperado.

Embora o governador-geral fosse responsável por uma série de obrigações que eram dos capitães-donatários, a administração da Colônia não era realizada somente por ele. Entre os outros cargos administrativos criados no Governo-Geral, ressalta-se:

Ouvidor-mor: responsável pelas questões jurídicas e pela aplicação da lei portuguesa na Colônia;

Provedor-mor: responsável pela arrecadação dos impostos e pelo controle do orçamento da Colônia;

Capitão-mor: responsável pelo desenvolvimento das defesas da Colônia, seja contra ataques estrangeiros, seja contra indígenas.

Os três primeiros governadores-gerais foram Tomé de Sousa, Duarte da Costa e Mem de Sá, os quais governaram o território entre 1549 e 1572. Com Tomé de Sousa, vieram os primeiros jesuítas para o Brasil, responsáveis pela catequização e pacificação dos indígenas. Um dos grandes feitos desse período foi a construção de Salvador, e um dos desafios foi a expulsão dos franceses que estavam estabelecidos na região da Baía da Guanabara, atual Estado do Rio de Janeiro.

Após o governo de Mem de Sá, a América Portuguesa foi dividida em dois governos-gerais: um com capital em Salvador e outro com capital na cidade do Rio de Janeiro.

Silvia Laura Abrahão

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

GUERRA DE CANUDOS

 A chamada Guerra de Canudosrevolução de Canudos ou insurreição de Canudos, foi o confronto entre um movimento popular de fundo socioreligioso e o exército da República, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do Estado da Bahia, no Brasil.


O episódio foi fruto de uma série de fatores como a grave crise econômica e social em que encontrava a região à época, historicamente caracterizada pela presença de latifúndios improdutivos, situação essa agravada pela ocorrência de secas cíclicas, de desemprego crônico; pela crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social.
Inicialmente, em Canudos, os sertanejos não contestavam o regime republicano recém-adotado no país; houve apenas mobilizações esporádicas contra a municipalização da cobrança de impostos. A imprensa, o clero e os latifundiários da região incomodaram-se com uma nova cidade independente e com a constante migração de pessoas e valores para aquele novo local passaram a acusá-los disso, ganhando, desse modo, o apoio da opinião pública do país para justificar a guerra movida contra o arraial de Canudos e os seus habitantes.
Aos poucos, construiu-se em torno de Antônio Conselheiro e seus adeptos uma imagem equivocada de que todos eram "perigosos monarquistas" a serviço de potências estrangeiras, querendo restaurar no país o regime imperial, devido, entre outros ao fato de o Exército Brasileiro sair derrotado em três expedições, incluindo uma comandada pelo Coronel Antônio Moreira César, também conhecido como "corta-cabeças" pela fama de ter mandado executar mais de cem pessoas na repressão à Revolução Federalista em Santa Catarina, expedição que contou com mais de mil homens.
A derrota das tropas do Exército nas primeiras expedições contra o povoado apavorou o país, e deu legitimidade para a perpetração deste massacre que culminou com a morte de mais de seis mil sertanejos. Todas as casas foram queimadas e destruídas.
Canudos era uma pequena aldeia que surgiu durante o século 18 às margens do rio Vaza-Barris. Com a chegada de Antônio Conselheiro em 1893 passou a crescer vertiginosamente, em poucos anos chegando a contar por volta de 25.000 habitantes. Antônio Conselheiro rebatizou o local de Belo Monte, apesar de estar situado num vale, entre colinas.
A situação na região, à época, era muito precária devido às secas, à fome, à pobreza e à violência social. Esse quadro, somado à elevada religiosidade dos sertanejos, deflagrou uma série de distúrbios sociais, os quais, diante da incapacidade dos poderes constituídos em debelá-los, conduziram a um conflito de maiores proporções.

ANTÔNIO CONSELHEIRO

Antônio Vicente Mendes Maciel, apelidado de "Antônio Conselheiro", nascido em Quixeramobim (CE) a 13 de março de 1830, de tradicional família que vivia nos sertões entre Quixeramobim e Boa Viagem, fora comerciante, professor e advogado prático nos sertões de Ipu e Sobral.
Após a sua esposa tê-lo abandonado em favor de um sargento da força pública, passou a vagar pelos sertões em uma andança de vinte e cinco anos. Chegou a Canudos em 1893, tornando-se líder do arraial e atraindo milhares de pessoas. Acreditava que era um enviado de Deus para acabar com as diferenças sociais e com a cobrança de tributos.
Acreditava ainda que a "República" (então recém-implantada no país) era a materialização do reino do "Anti-Cristo" na Terra, uma vez que o governo laico seria uma profanação da autoridade da Igreja Católica para legitimar os governantes. A cobrança de impostos efetuada de forma violenta, a celebração do casamento civil, a separação entre Igreja e Estado eram provas cabais da proximidade do "fim do mundo".
escravidão havia acabado poucos anos antes no país, e pelas estradas e sertões, grupos de ex-escravos vagavam, excluídos do acesso à terra e com reduzidas oportunidades de trabalho. Assim como os caboclos sertanejos, essa gente paupérrima agrupou-se em torno do discurso do peregrino "Bom Jesus" (outro apelido de Conselheiro), que sobrevivia de esmolas, e viajava pelo Sertão.
O governo da República, recém-instalado, queria dinheiro para materializar seus planos, e só se fazia presente pela cobrança de impostos. Para Conselheiro e para a maioria das pessoas que viviam nesta área, o mundo estava próximo do fim. Com estas ideias em mente, Conselheiro reunia em torno de si um grande número de seguidores que acreditavam que ele realmente poderia libertá-los da situação de extrema pobreza ou garantir-lhes a salvação eterna na outra vida.
A primeira reação oficial do governo da Bahia deu-se em outubro de 1896, quando as autoridades de Juazeiro apelaram para o governo estadual baiano em busca de uma solução. Este, em novembro, mandou contra o arraial um destacamento policial de cem praças, sob o comando do tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. Os conselheiristas, vindo ao encontro dos atacantes, surpreenderam a tropa em Uauá, em 21 de novembro, obrigando-a a se retirar com vários mortos. Enquanto aguardavam uma nova investida do governo, os jagunços fortificavam os acessos ao arraial.
Comandada pelo major Febrônio de Brito, em janeiro de 1897, depois de atravessar a serra de Cambaio, uma segunda expedição militar contra Canudos foi atacada no dia 18 e repelida com pesadas baixas pelos jagunços, que se abasteciam com as armas abandonadas ou tomadas à tropa. Os sertanejos mostravam grande coragem e habilidade militar, enquanto Antônio Conselheiro ocupava-se da esfera civil e religiosa.
Na capital do país, o governo federal ante este fato e a pressão de políticos florianistas que viam em Canudos um perigoso foco monarquista, assumiu a repressão, preparando a primeira expedição regular, cujo comando confiou ao coronel Antônio Moreira César. A notícia da chegada de tropas militares à região atraiu para lá grande número de pessoas, que partiam de várias áreas do Nordeste e iam em defesa do "homem Santo". Em 2 de março, depois de ter sofrido pesadas baixas, causadas pela guerra de guerrilhas na travessia das serras, a força, que inicialmente se compunha de 1.300 homens, assaltou o arraial. Moreira César foi mortalmente ferido e passou o comando para o coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Abalada, a expedição foi obrigada a retroceder. Entre os chefes militares sertanejos destacaram-se Pajeú, Pedrão, que depois comandou os conselheiristas na travessia de Cocorobó, Joaquim Macambira e João Abade, braço direito de Antônio Conselheiro, que comandou os jagunços em Uauá.
No Rio de Janeiro, a repercussão da derrota foi enorme, principalmente porque se atribuía ao Conselheiro a intenção de restaurar a monarquia. Jornais monarquistas foram empastelados e Gentil José de Castro, gerente de dois deles, assassinado. Em abril de 1897 então, providenciou-se a quarta e última expedição, sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, composta de duas colunas, comandadas pelos generais João da Silva Barbosa e Cláudio do Amaral Savaget, ambas com mais de quatro mil soldados equipados com as mais modernas armas da época. No decorrer da luta, o próprio ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, seguiu para o sertão baiano e se instalou em Monte Santo, base das operações.
O primeiro combate verificou-se em Cocorobó, em 25 de junho, com a coluna Savaget. No dia 27, depois de sofrerem perdas consideráveis, os atacantes chegaram a Canudos. Após várias batalhas, a tropa conseguiu dominar os jagunços, apertando o cerco sobre o arraial. Depois da morte de Conselheiro (supõe-se que em decorrência da desinteria), em 22 de setembro, parte da população de mulheres, crianças e idosos foi colocada à disposição das tropas federais, enquanto um último reduto resistia na praça central do povoado.
Em tal momento de rendição, há relatos de que foi instituída, suspeitadamente por oficiais de baixa patente do exército, o que se denominou de pena da "gravata vermelha" - execução sumária de prisioneiros já subjugados, que eram posicionados de joelhos e degolados. Estima-se que parte da população civil rendida, que ainda não havia sido dizimada pela fome e pelas doenças no arraial, e não somente os prisioneiros combatentes, tenha sido executada dessa forma por tropas federais, o que constituiu num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro.
O arraial resistiu até 5 de outubro de 1897, quando morreram os quatro derradeiros defensores. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada a faca. No dia 6, quando o arraial foi arrasado e incendiado, o Exército registrou ter contado 5.200 casebres.
O conflito de Canudos mobilizou aproximadamente doze mil soldados oriundos de dezessete Estados brasileiros, distribuídos em quatro expedições militares. Em 1897, na quarta incursão, os militares incendiaram o arraial, mataram grande parte da população e degolaram centenas de prisioneiros. Estima-se que morreram ao todo por volta de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da povoação.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

REVOLTA PAULISTA DE 1924

 Depois do incidente dos “18 do Forte”, que tentou derrubar o governo de Artur Bernardes, os integrantes do movimento tententista pareciam ganhar maior força política. Dessa forma, os oficiais de baixa patente que faziam parte do movimento tentaram articular novos golpes contra o regime oligárquico vigente. Para tanto, buscavam empreender uma série de revoltas militares simultâneas que pudessem forçar a queda do presidente.



No dia 5 de julho de 1924, tropas de São Paulo tentaram promover um movimento de caráter nacional que deveria tomar conta de outras importantes cidades do país. Entretanto, a rebelião liderada por Isidoro Dias Lopes conseguiu acender outros focos somente em Mato Grosso, Amazonas, Pará, Sergipe e Rio Grande do Sul. No Estado paulista, a ação tenentista conseguiu tomar pontos estratégicos da capital e atacar o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo estadual.

O vigor dos ataques militares obrigou Carlos de Campos, presidente do Estado, a fugir de São Paulo. A capital se transformou em um verdadeiro palco de guerra, forçando cerca de 300 mil pessoas a saírem refugiadas. A violência dos bombardeios deixou várias partes da cidade destruída e a ausência do presidente estadual transformou o Palácio do Governo em um foco de resistência tenentista. Entretanto, a falta de apelo popular enfraqueceu o movimento.

Em 10 de julho de 1924, os revoltosos divulgaram um manifesto que exigia a imediata deposição do presidente Artur Bernardes e um conjunto de reformas políticas. De fato, os tenentistas não tinham um projeto de poder claramente definido. Suas críticas giravam em torno da corrupção eleitoral que assolava o país, na instauração do voto secreto e a reforma das instituições de ensino. Sem articular um projeto para as maiorias, defendiam a reintrodução dos militares na vida política nacional.

Não resistindo à superioridade bélica das forças fiéis ao governo federal, os tenentes paulistas decidiriam deslocar o movimento para outra localidade. No dia 27 de julho de 1924, os militares paulistas romperam o cerco dos exércitos situacionistas, alcançando a região norte do Paraná, na fronteira entre o Paraguai e a Argentina. Depois de conquistarem algumas cidades paranaenses e catarinenses, esses militares decidiram se unir aos militares da Coluna Gaúcha liderada por Luís Carlos Prestes.

LEVANTE DOS 18 DO FORTE DE COPACABANA

 Conhecida como uma das primeiras manifestações do movimento tenentista, o Levante do Forte de Copacabana foi uma das mais significativas demonstrações de crise da hegemonia oligárquica. Esta revolta foi ambientada no ano de 1922, período em que acontecia a campanha de sucessão ao governo do presidente Epitácio Pessoa. A disputa eleitoral envolveu Artur Bernardes, representante da oligarquia paulista, e Nilo Peçanha, apoiado pelos militares e oligarcas dissidentes do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia.



Derrotados na disputa eleitoral, os tenentes se sentiram profundamente frustrados com a perpetuação de mais um representante das oligarquias. Foi nesse momento que uma série de cartas falsas, supostamente escritas por Artur Bernardes, dirigia várias críticas à ação política dos oficiais do exército. Ao mesmo tempo, havia um descontentamento geral contra o novo governo em uma época em que a população sentia profundamente as mazelas causadas pelo conservadorismo político-econômico dos oligarcas.

Nesse clima de insatisfação geral, alguns militares de baixa patente organizaram levantes em instalações militares do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Niterói. Na verdade, a agitação desse militares somente tomou corpo depois que o marechal Hermes da Fonseca foi preso após criticar o processo eleitoral que garantiu a vitória de Artur Bernardes. Entre os diversos focos de revolta, o mais grave aconteceu na capital, no interior das instalações do Forte de Copacabana, em cinco de julho de 1922.

Controlados sob a liderança de Euclides Hermes da Fonseca (filho do marechal) e Siqueira Campos, os militares amotinados apontaram seus canhões em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Segundo relato, a intenção desses revoltosos era de tomar o Palácio do Catete e colocar Hermes da Fonseca como presidente provisório. Nesse meio tempo, os votos da última eleição seriam recontados para que se acabassem as suspeitas de fraude que marcaram aquela disputa.

Temendo o poder de reação do governo, os líderes do Forte permitiram que aqueles soldados que não quisessem participar do levante saíssem do local. De todos os 300 amotinados ali encontrados, somente vinte e oito resolveram permanecer no conforto. Com a imensa deserção acontecida, Euclides Hermes da Fonseca resolveu sair do Forte para tentar negociar com o governo. Após sua saída, foi imediatamente preso e o prédio bombardeado pelas tropas governamentais.

A intensificação dos ataques forçou o pequeno grupo a abandonar o Forte de Copacabana. Entre todos os participantes, somente dezessete resolveram seguir em frente com o arriscado plano. A caminho do palácio, os militares ganharam o apoio de um civil chamado Otávio Pessoa. Assim, os “18 do Forte” saíram pela Praia de Copacabana dispostos a enfrentar as tropas do governo. No confronto, dezesseis deles foram mortos. Eduardo Gomes e Siqueira Campos acabaram presos.

Apesar da eficiente represália das tropas oficiais, o evento dos “18 do Forte” inspirou outros indivíduos ligados ao Exército a darem continuidade ao movimento tenentista. Dois anos mais tarde, novos incidentes envolvendo os militares mostrariam, mais uma vez, a crise que acometia os grupos políticos vinculados às oligarquias. Sinais de que os anseios políticos da época passavam por uma séria transformação e que os cafeicultores não poderiam assegurar sua própria hegemonia.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

REVOLTA LIBERAL de 1842 EM MINAS GERAIS

Em 1840, quando D. Pedro II assumiu o trono do Brasil, o Exército estava empenhado na pacificação de movimentos armados nas províncias do Pará (Cabanagem) e do Maranhão (Balaiada), e lutando para debelar a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Tais rebeliões refletiam a instabilidade política gerada pela disputa entre liberais e conservadores, a qual se arrastou durante todo o período regencial. O Partido Liberal reunia defensores de ideias renovadoras, enfatizando a maior autonomia das províncias e contrapondo-se ao Partido Conservador.



Em 1842, a Assembleia Geral dos liberais foi dissolvida e os conservadores novamente retomaram o poder. Reagindo à dissolução da Assembleia, os liberais articularam um movimento armado contra a ascensão ao poder do Partido Conservador, inicialmente na província de São Paulo, depois expandindo-se para Minas Gerais. Os liberais visualizaram a derrubada do Gabinete de Ministros conservadores, sob o argumento de verem nele indícios de autoritarismo.

Com o objetivo de angariar apoio político e popular, os liberais divulgaram a falsa notícia de que o imperador havia sido coagido para aprovar a legislação conservadora, e que estava em prisão domiciliar em seu palácio.

Na Província de Minas Gerais, a revolta teve início em 10 de junho de 1842, na cidade de Barbacena, escolhida como sede do governo revolucionário. Os liberais, liderados por Teófilo Ottoni, conseguiram a adesão da Guarda Nacional, depondo o presidente da província, Bernardo Jacinto da Veiga, e substituindo-o por José Feliciano Pinto Coelho da Cunha.

Coube à Caxias a tarefa de dominar a sublevação liberal. Embora Caxias temesse que os rebeldes tomassem Ouro Preto, capital da província, estes tinham por objetivo principal conquistar Queluz, abrindo caminho para a capital. Assim, Queluz foi atacada, em 26 de julho, pelos revoltosos.  

Na verdade, vários legalistas foram feitos prisioneiros e houve um total cinquenta mortos. A conquista de Queluz pelos rebeldes abriu-lhes o caminho para o ataque a Ouro Preto. A notícia da derrota dos revoltosos paulistas, no entanto, arrefeceu o ânimo dos liberais mineiros e dividiu a opinião de seus líderes sobre a viabilidade de Ouro Preto. Buscando ocupar uma posição mais segura, os revoltosos seguiram para Lagoa Santa, onde se entrincheiraram, após terem sido cercados pelas forças imperiais no arraial de Santa Luzia.

Na manhã do dia 20 de agosto, Caxias investiu sobre os revoltosos. As baixas das forças imperiais foram mínimas, totalizando 72 mortos e feridos; enquanto os rebeldes perderam 60 mortos, 100 feridos e 300 prisioneiros. Os vencidos, entre os quais se encontravam Teófilo Ottoni e Camilo Maria Ferreira Armond (conde de Prados), foram enviados para a prisão em Ouro Preto e Barbacena.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

INSURREIÇÃO PERNAMBUCANA

Insurreição Pernambucana ocorreu no contexto da ocupação holandesa na região Nordeste do Brasil, em meados do século XVII. Ela representou uma ação de confronto com os holandeses por parte dos portugueses, comandados principalmente por João Fernandes Vieira, um próspero senhor de engenho de Pernambuco. Nessa luta contra os holandeses, os portugueses contaram com o importante auxílio de alguns africanos libertos e também de índios potiguares.

A oposição dos portugueses aos holandeses ocorreu em decorrência da intensificação da cobrança de impostos e também da cobrança dos empréstimos realizados pelos senhores de engenho de origem portuguesa com os banqueiros holandeses e com a Companhia das Índias Ocidentais, empresa que administrava as possessões holandesas fora da Europa.
Outro fato que acirrou a rivalidade entre portugueses e holandeses foi a questão religiosa. Boa parte dos holandeses que estava na região de Recife e Olinda era formada por judeus ou protestantes. Nesse contexto religioso que trazia as consequências da Reforma e da Contrarreforma para solo americano, o catolicismo professado pelos portugueses era mais um elemento de estímulo para expulsar os holandeses do local.
Os conflitos iniciaram-se em maio de 1645, após o regresso de Maurício de Nassau à Holanda. As tropas comandadas por João Fernandes Vieira receberam o apoio de Antônio Felipe Camarão, índio potiguar conhecido como Poti que auxiliou no combate aos holandeses junto a centenas de índios sob seu comando. Outro auxílio recebido veio do africano liberto Henrique Dias. A Batalha do Monte Tabocas foi o principal enfrentamento ocorrido nesse início da Insurreição. Os portugueses conseguiram infligir uma retumbante derrota aos holandeses, garantindo uma elevação da moral para a continuidade dos conflitos. Além disso, os insurrectos receberam apoio de tropas vindas principalmente da Bahia.
Outro componente envolvido na Insurreição Pernambucana estava ligado às disputas que havia entre vários países europeus à época. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), os espanhóis estavam em confronto com os holandeses pelos territórios dos Países Baixos. Era ainda o período da União Ibérica, em que o Reino Português estava subjugado ao Reino Espanhol.
Nesse sentido, a posição holandesa em relação a Portugal era dúbia.  Em solo europeu, os holandeses apoiavam os portugueses contra o domínio espanhol, mas, ao mesmo tempo, ocupavam territórios portugueses na África Ocidental e no Brasil, sendo que além da região pernambucana, os holandeses tentaram ainda conquistar algumas localidades no Maranhão e em Sergipe.
No início de 1648, Holanda e Espanha selaram a paz, e os espanhóis aceitaram entregar aos holandeses as terras tomadas pelos insurrectos portugueses em Pernambuco. Frente a tal situação, o conflito continuou. Em Abril de 1648, ocorreu a primeira Batalha dos Guararapes, em que os holandeses sofreram dura derrota, abrindo caminho para o ressurgimento do domínio português a partir de 1654.
EXERCÍCIOS
1 A eclosão da Insurreição Pernambucana no século XVII fez parte de uma série de eventos que se desenrolou após:
a) a morte de Dom Sebastião.
b) a ascensão de Felipe II ao trono espanhol.
c) a morte de Maurício de Nassau em Recife.
d) o fim da União Ibérica.

e) o início da Revolução Francesa

2 Entre as principais razões para a Insurreição Pernambucana estava:
a) a intensificação da cobrança dos empréstimos que os senhores de engenho haviam contraído com os banqueiros holandeses.
b) a morte de Domingos Fernandes Calabar.
c) as reformas agrárias promovidas pelos holandeses, o que provocou o fim dos grandes latifúndios e da produção de açúcar.
d) a invasão da região da Guanabara pelos franceses huguenotes.
e) a expulsão da Companhia das Índias Ocidentais das Antilhas.

3 O desfecho da Insurreição Pernambucana, pode-se dizer, foi decidido nas Batalhas dos Guararapes. Sobre esse conflito, é INCORRETO dizer que:
a) leva esse nome porque ocorreu nos Montes Guararapes.
b) não causou nenhum dano à estrutura militar holandesa.
c) desenrolou-se entre os anos de 1648 e 1649.
d) Antônio Dias Cardoso foi um dos principais líderes dos insurretos.
e) foi retratado no século XIX pelo pintor Pedro Américo.

4 A Insurreição Pernambucana foi, em grande parte, reflexo da rivalidade histórica que havia entre Espanhóis e Holandeses. A ocupação dos holandeses no Brasil ocorreu em uma época em que o país estava sob o jugo da Coroa Espanhola. Nesse mesmo contexto ocorria(m):
a) As Guerras Napoleônicas
b) A Guerra das Rosas
c) A Guerra dos Trinta Anos.
d) As Guerras de Unificação Nacional da Alemanha e da Itália
e) A Guerra de Secessão Americana

Discorra sobre a situação econômica dos senhores de engenho após a saída de Maurício de Nassau e a sua relação com a deflagração da Insurreição Pernambucana.

GABARITO
1 D
2 A
3 B
4 C

domingo, 24 de maio de 2020

A BATALHA DO TUIUTI

Durante a Guerra do Paraguai, várias batalhas ficaram marcadas pelo confronto entre os países latino-americanos. Dentre elas, a Batalha de Tuiuti. Sem dúvidas, esta foi a mais violenta de todas elas. Além disso, é considerada a mais sangrenta pelo número expressivo de mortos no combate.

A batalha ocorreu em 1866, no dia 24 de maio. À frente do exército da Tríplice Aliança – formado por Brasil, Argentina e Uruguai – estava o marechal brasileiro, Manuel Luís Osório; Bartolomé Mitre, militar argentino, e o general do Uruguai, Venâncio Flores. Já, do lado paraguaio, o general José E. Díaz comandava as tropas.
Por conta da localidade da batalha, nos arredores da lagoa de Tuiuti, a Tríplice Aliança enfrentou dificuldades para vencer os paraguaios. Isso porque a região era formada por pântanos. Inclusive, Tuiuti vem do guarani e significa “lama branca”. Apesar dos empecilhos, a Tríplice Aliança venceu os paraguaios na batalha que marcou a história dos países da América do Sul.
A BATALHA
Um ano antes da Batalha do Tuiuti, a Tríplice Aliança lutava, em 1865, na Batalha do Riachuelo. Assim, após a vitória, começaram a arquitetar a invasão do Paraguai. Porém, antes que os planos fossem efetivados, ainda lutaram na Batalha de Estero Bellaco que serviu para despistar as tropas paraguaias do caminho.
Dessa forma, a Tríplice Aliança podia adentrar o Paraguai sem muitas complicações. O plano era simples, invadir as terras paraguaias e conquistar o território. Porém, os aliados contavam com o primeiro obstáculo: o desconhecimento do terreno que queriam invadir. Além disso, não sabiam nada em relação ao armamento dos paraguaios e não possuíam mapas.
Assim, seguiram caminho até chegarem, no dia 20 maio, às proximidades da lagoa de Tuiuti. Como é de imaginar, a região próxima à lagoa era formada por solo lodoso composto, principalmente, por lama branca. Daí, a origem do nome Tuiuti, que vem do guarani.
As condições do local não favoreciam as tropas, porém não tiveram escolha. Assim, montaram as barracas ali mesmo, perto da lagoa, e se instalaram próximo ao acampamento das tropas paraguaias. A superioridade do exército dos aliados era grande, cerca de 33.000 soldados que se preparavam para o grande dia.
A invasão ao acampamento dos paraguaios estava marcada para o dia 25 de maio. Os brasileiros, argentinos e uruguaios decidiram vascular a região, já que não conheciam quase nada sobre o território inimigo. Com isso, os 33.ooo soldados fizeram expedições no entorno da região inimiga.

A notícia de que as tropas aliadas estariam por perto chegou ao acampamento do Paraguai e, a mando do ditador Francisco Solano López, os aliados foram surpreendidos com o ataque, no dia 24 de maio. Era quase final da manhã, 11h30, momento em estavam se preparando para almoçar.

O Paraguai havia decidido atacar as tropas aliadas um pouco mais cedo, por volta das 9h. Entretanto, as condições em que o acampamento se encontrava não eram fácies. Assim, tiveram que atravessar o pântano até chegar ao local onde os soldados aliados estavam.
A partida para a batalha foi uma bala de canhão jogada bem no meio do acampamento. Desesperados e despreparados, os aliados começaram a se organizar e estruturar uma linha de frente para conter os 20.000 soldados paraguaios.
O Paraguai contava com uma cavalaria forte e a vantagem de terem surpreendidos os inimigos, porém os aliados estavam em vantagem numérica.
As tropas do Paraguai não contavam com a artilharia argentina que vinha pelo lado direito. Esse era o primeiro contra-ataque das tropas aliadas que conseguiram se organizar rapidamente contra o inimigo. Sem saídas, a cavalaria paraguaia logo foi recuando do campo de batalha.

As tropas paraguaias acreditavam na superioridade por terem surpreendido o inimigo. Entretanto, como já mencionamos, a Tríplice Aliança contava com armamento reforçado e o número de soldados bem maior em relação às tropas inimigas. Além disso, por conta do pântano e das condições do local, era mais fácil para quem defendia do que para quem estava atacando.

A batalha que teve início às 11h30 terminou após 6 horas de luta entre as tropas, com a vitória da Tríplice Aliança. Dessa forma, estima-se que 6.996 soldados tenham perdido a vida na batalha, sendo que desse total 6.000 eram paraguaios. Além disso, aproximadamente, 9.935 soldados ficaram feridos. Por conta dos soldados mortos e feridos, o Paraguai perdeu a maioria da tropa.
Por fim, devido a morte expressiva de paraguaios, o comandante López não conseguiu formar um novo exército até que a Guerra do Paraguai (que durou por mais quatro anos) chegasse ao fim. Assim, o país foi sendo conquistado, até ser totalmente dominado pelos aliados.